sábado, 7 de janeiro de 2012

FR. HENRIQUE- C.FOUC.-02

Traços biográficos: a incessante busca do sentido existencial

A vida de Charles de Foucauld não foi um caminho retamente traçado, mas um itinerário tumultuado e sinuoso. É a trajetória de um homem inquieto, sempre em busca do sentido existencial. Talvez por causa disso seu testemunho atraia tantas pessoas, hoje! Charles-Eugène de Foucauld nasce em Estrasburgo, a 15 de setembro de 1858, exatamente no ano das aparições de Nossa Senhora em Lourdes, na França. Seus pais são Francisco Eduardo, Visconde de Foucauld de Pontbriand e Isabel de Morlet. 

Aos seis anos de idade fica órfão, acontecimento que marcará toda a sua vida. Torna-se uma criança fechada que não gosta de barulho e é muito sensível. Com sua irmã Maria — três anos mais nova que ele — foi carinhosamente educado pelo avô materno, um coronel reformado do exército francês. Sua juventude decorre num ambiente de revolta e insatisfação. Sente um tremendo vazio em sua vida.


Dotado de uma boa inteligência, frequenta escolas de alto nível, mas mostra-se um indisciplinado que não suporta um regime de estudos metódicos. Torna-se, igualmente, um cético em termos religiosos. Embora criado num ambiente profundamente cristão, deixa de lado a fé de sua infância que lhe parece irracional. Durante doze anos ficará neste agnosticismo, aliás, bastante comum entre as elites intelectuais na França de seus dias.


Por influência de seu avô, consegue entrar na escola militar preparatória de Saint-Cyr, em Paris, mas não leva a sério seus estudos. Na escola de cavalaria em Saumur será classificado no penúltimo lugar! Com a morte do avô (1878) herda uma considerável fortuna, que lhe possibilita levar uma vida de prazeres. Em outubro de 1880, o agora tenente Foucauld parte para a Argélia, então colônia francesa, no norte da África, a fim de servir no 4º Regimento de Caçadores. Acompanha-o a jovem Mimi, uma mulher pela qual se apaixonou.

Na África recomeçam as farras e a conseqüência é sua sumária demissão do exército “por indisciplina e notório mau procedimento” (março 1881). Volta à França, mas, tomando conhecimento que seu regimento foi convocado para combater uma insurreição, pede reintegração nas tropas na qualidade de simples soldado. Para surpresa de todos, mostra-se um militar valente e infatigável. Mas, no fundo, o serviço militar não o atrai e, após oito meses, ele mesmo pede demissão (fevereiro 1882). Começa a preparar-se para ser explorador, numa região então inacessível aos europeus: o Marrocos. “Quis fazer da própria vida uma aventura solitária, fora das arregimentações das tutelas administrativas ou institucionais”.

Durante 18 meses dedica-se ao estudo do árabe e aprende o manejo de instrumentos científicos necessários na exploração, além de obter conhecimentos de etnologia, geografia, astronomia e cartografia.

Finalmente, disfarçado como rabino judeu — com o nome de Joseph Aleman, supostamente nascido na Rússia — entra no Marrocos, acompanhado por Mardoqueu, um rabino de verdade. Um ano inteiro os dois viajam pelo país (junho 1883 a junho 1884), quando Foucauld faz um precioso registro de suas descobertas.

Ele, o incrédulo, é profundamente tocado pelas vigorosas demonstrações de fé da população muçulmana. Impressiona-o a seriedade dos gestos de adoração da transcendência divina, causando nele uma inquietação e interrogação sobre a dimensão religiosa da existência. Tudo isso faz com que entreveja algo maior e mais verdadeiro do que as ocupações meramente mundanas (Carta ao amigo Henri de Castries, 8-7-1901).

Suas valiosas informações científicas resultam na concessão da “Medalha de Ouro” da Sociedade de Geografia da França (janeiro 1885). De volta a Paris, inicia a publicação de sua obra científica Reconnaissance au Marroc, editada em 1888. O reencontro com a família é caloroso, o que faz um grande bem a Charles. Sobretudo os laços afetivos com sua prima Marie de Blondy serão importantes para ele. É ela que o põe em contato com o Padre Henri Huvelin ((1838-1910), da Igreja de Santo Agostinho, na capital francesa, um sacerdote dotado de excepcionais qualidades no acompanhamento espiritual. Será o instrumento nas mãos de Deus para sua conversão, acontecida em fins de outubro de 1886.

O espírito perspicaz e profundamente evangélico de Huvelin percebe imediatamente que está diante de um homem de incomum procura da verdade. Acolhe-o amorosamente, mas também com vigor. Sabiamente conduz a impulsividade desse jovem explorador, que agora entra na exploração de seu próprio interior. Faz sentir a Foucauld que o cristianismo não é aquela religião dogmática, abstrata e alheia à vida real, que ele se imaginava, mas o encontro com um Deus de amor, na pessoa de Jesus Cristo. Uma religião toda pautada na caridade de um Deus misericordioso, próximo e presente. Como sempre acontece na sua vida, também a mudança que o encontro com Padre Huvelin provoca é radical. Referindo-se, mais tarde, à sua conversão, dirá: “Imediatamente, ao crer que havia um Deus, compreendi que não podia deixar de viver só para Ele. Minha vocação religiosa data do mesmo instante que minha fé”. Aconselhado por seu orientador espiritual, Charles — agora com 30 anos de idade — empreende uma peregrinação à Terra Santa, entre novembro de 1888 e fevereiro de 1889.


Passando por Nazaré, fica fascinado com a vida humilde e pobre que Jesus lá passou por trinta anos, como simples artesão. Descobre — sem se conscientizar disso, naquele momento — o “tesouro escondido” de sua vida e o núcleo de sua espiritualidade.

No fundo, confronta-se com o realismo da encarnação divina: um Deus plenamente humano, próximo e identificado com os mais simples, ocupando, de fato, o “último lugar” entre os homens.

Aceitando a proposta do Padre Huvelin, Charles de Foucauld, uma vez de volta à França, vai à procura de uma vida cristã mais comprometida. No dia 16 de janeiro de 1890, entra no mosteiro trapista de Notre-Dame-des- Neiges, no Ardèche, e recebe, junto com o hábito monástico, um novo nome: irmão Marie-Albéric. Já em junho daquele ano, estando ainda no período de seu noviciado canônico, pede transferência para o Mosteiro da Ordem em Akbés, na Síria, uma recente fundação e considerada uma das casas mais pobres dos Trapistas. 

Na Trapa não encontra o que desejava no mais íntimo de seu ser: uma vida conforme a pobreza e despojamento de Jesus em Nazaré. É nesse período (1893) que nascem os primeiros projetos de uma Vida Religiosa diferente, mais de acordo com a experiência do Nazareno. Apesar de suas hesitações, pronuncia os votos religiosos na Ordem Trapista. 

Em outubro de 1896, parte para o Mosteiro de Staouéli, na Argélia (África), onde permanece apenas um mês. É enviado a Roma para iniciar seus estudos em preparação ao sacerdócio. No dia 23 de janeiro de 1897, a seu próprio pedido, o Geral da Ordem lhe concede a dispensa dos votos, reconhecendo que sua vocação peculiar dificilmente se enquadraria na modalidade trapista da vida consagrada. Para Foucauld, entretanto, não se trata de um abandono da Vida Religiosa, pelo contrário. Padre Huvelin sugere que volte novamente a Nazaré para discernir melhor sua vocação. Durante três anos (1897- 1900) será o serviçal das Clarissas de Nazaré. Mora num barracão, onde são guardadas as ferramentas do convento.

O MOSTEIRO ONDE C. FOUCAULD FICOU 

Na realidade, esses anos constituem um “longo retiro espiritual”, no qual elabora três quartos de seus escritos espirituais, sobretudo Meditações sobre os Evangelhos. Na região é conhecido simplesmente como Carlos, irmão leigo, e empregado das Irmãs. Passa longas horas em oração, sobretudo à noite, privilegiando a adoração eucarística. O período passado em Nazaré não é um tempo de tranqüilidade espiritual. Charles é novamente assaltado por dúvidas: qual caminho a tomar? Vacila entre projetos contrários que vão de um extremo ao outro. 

Se não fosse a firme orientação de Huvelin, esse homem — agora com seus 40 anos — ter-se-ia perdido completamente. Fica, no entanto, uma certeza inabalável: a vontade de imitar Jesus na sua vida em Nazaré. Em 1899 elabora o “Regulamento para Ermitães do Sagrado Coração de Jesus”. Lentamente nasce nele o desejo de ser ordenado sacerdote. Vence interiormente as resistências, sobretudo as que dizem respeito à posição social que acarreta o ser presbítero. Vê a ordenação presbiteral na perspectiva da eucaristia: Jesus, realmente presente, que se sacrifica para que todos sejam salvos, missão da qual ele poderia participar mais diretamente como sacerdote. 

A 29 de setembro de 1900, Charles de Foucauld volta ao Mosteiro de Nossa Senhora das Neves, agora já não mais como monge trapista, mas como candidato ao sacerdócio. Após ter recebido as Ordens Menores, o subdiaconato e diaconato — na seqüência em vigor naquele tempo — é ordenado presbítero, em Viviers (Ardèche), a 9 de junho de 1901.

Uma vez sacerdote, já não pensa mais em voltar à Terra Santa. “Os anos passados no Oriente foram anos de preparação. Acostumara-se à vida solitária, à disciplina sem testemunhos, ao trabalho sem programa imposto. Tinha realizado a aprendizagem que lhe permitiria suportar, no futuro, provas mais duras sem desfalecimentos e com a alegria de quem obedece à sua vocação” .

Como presbítero independente da Diocese de Viviers, na França, recebe autorização de ir ao território colonial francês, no Norte da África. Desembarca em Argel, onde é recebido pelo Prefeito Apostólico do Saara, Dom Guérin. Estabelece-se em Beni-Abbès, um oásis no deserto, perto da fronteira do Marrocos. Seu eremitério não é um mosteiro fechado, mas uma casa aberta, uma “fraternidade”, acessível a todo tipo de pessoas, mas principalmente àqueles que eram rejeitados, “os últimos”.

Quer que sua habitação seja uma humilde Casa de Nazaré, lugar de oração e hospitalidade, inspirada na zaouia, um daqueles pequenos centros de hospedagem do Islã onde mora um “homem de Deus”, tais como conhecera na sua viagem de exploração no Marrocos. Na capelinha de seu eremitério desenha, acima do altar, uma grande figura do Coração de Jesus, de braços estendidos para estreitar todos os seres humanos, oferecendo-lhes seu amor. Todo dia recebe muitas pessoas, entre soldados, pobres, viajantes e escravos. As próprias circunstâncias o ensinam que o encontro com Deus, na oração e na eucaristia, necessariamente conduz à caridade para com o próximo.

Esses dois amores são inseparáveis, tal como Jesus os viveu durante os trinta anos que morava em Nazaré. Cresce seu zelo apostólico para que a salvação divina atinja todos os segmentos da sociedade.

Pensa particularmente no Marrocos, onde “milhões de habitantes se encontram em completo abandono”. Quer introduzir neste país o Evangelho pelo testemunho cristão, silencioso e contemplativo, o que considera sua vocação específica.

Mas este seu projeto não pôde realizar-se nos moldes em que o sonhara.

Em 1904, parte para o sul do Saara, escoltado (contra a sua vontade) por um comboio militar. Estabelece-se na região dos tuaregues, no Hoggar, após ter obtido autorização do amenokal (chefe tribal) Moussa-Ag [= filho de] Amastane. Constrói seu eremitério perto da localidade de Tamanrasset. Lá ficará durante cinco períodos, e sem ter realizado seu projeto de uma “fraternidade nazarena no deserto”. Na verdade, porém, esta morte foi como o grão de trigo, jogado no chão para poder produzir abundantes frutos. Ele mesmo o predissera num de seus escritos, que traz a data de 04 de abril de 1898: “Se o grão de trigo não morre, fica só; se morre, produz muito fruto.

Não se pode fazer o bem senão sofrendo, e para fazer muito bem é necessário sofrer muito. Para fazer muito bem às almas, é necessário morrer, por assim dizer, por meio de um intenso sofrimento” .

A personalidade de Charles de Foucauld não se presta a uma fácil análise. Temos diante de nós uma pessoa controvertida e contraditória sob muitos aspectos. A busca do Absoluto é, afinal, o único elo que dá uma certa consistência às suas aventuras existenciais. Seu trajeto pessoal oferece a narrativa clássica do homem à procura de Deus que, paulatinamente, aprende a despojar-se de tudo para guardar o que é realmente essencial na vida.

Foucauld era possuidor de uma privilegiada inteligência, mas sua formação é antes científica e prática do que filosófica e teológica. Por natureza é um homem radicalmente independente que alimenta grandes ambições. É teimoso e muito apegado às suas idéias, que quer realizar a todo custo.

Não se resigna facilmente diante de oposições e contratempos. Acima de tudo, defende sua liberdade e não permite que esta seja questionada. Sua vida apresenta numerosas rupturas: é um apaixonado por Jesus Cristo e quer sinceramente colocar-se em sintonia com a vontade de Deus, mas ao mesmo tempo tenta traçar seu próprio projeto de vida. 

Oriundo de família nobre, decide levar uma vida escondida e simples. Desenvolve idéias grandiosas,mas continuamente é obrigado a deixá-las. É formado como militar, mas resolve ser um irmão dependente no meio do povo desprovido de tudo, deixando para trás seu status social de superioridade. Exatamente essas numerosas reviravoltas existenciais falam à imaginação de tantas pessoas que experimentam algo semelhante em suas vidas. 

As rupturas proporcionaram a Charles de Foucauld, na realidade, uma grande liberdade de espírito, bem notável nos últimos doze anos de sua vida.


A característica fundamental da vida de Foucauld é precisamente esta permanente busca por aquilo que, afinal de contas, permanece. E neste itinerário ele chega a uma entrega, cada vez mais completa, a Deus e aos irmãos.

Uma tensão que o acompanha durante toda a existência é de equilibrar as duas pulsões que o movem interiormente: sua vocação de ermitão, no silêncio e na solidão, e seu incontido anseio de “salvar almas”, sobretudo as mais abandonadas e esquecidas. São os dois apelos que dinamizam sua força interior e que, no decorrer dos anos, começam a harmonizar-se numa fascinante síntese de vida espiritual.