quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O DESERTO DE CARLOS DE FOUCAULD


É preciso passar pelo deserto e aí permanecer para receber a graça de Deus; é lá que nos esvaziamos, que extraímos de nós tudo o que não é de Deus e que esvaziamos completamente esta pequena casa da nossa alma para deixar todo o espaço apenas para Deus.
Os judeus passaram pelo deserto, Moisés viveu lá antes de receber a sua missão, São Paulo e São João Crisóstomo prepararam-se no deserto [...]. 

É um tempo de graça, é um período pelo qual toda a alma que quer produzir frutos tem necessariamente de passar. Ela precisa deste silêncio, deste recolhimento, deste esquecimento de todo o criado, no meio dos quais Deus estabelece o Seu reino e forma nela o espírito interior: a vida íntima com Deus, a conversa da alma com Deus na fé, na esperança e na caridade. Mais tarde, a alma produzirá frutos exatamente na medida em que o homem interior se tiver formado nela (Ef 3, 16) [...].

Não se dá o que se não tem e é na solidão, nesta vida apenas e só com Deus, neste recolhimento profundo da alma que esquece tudo para viver exclusivamente em união com Deus, que Deus Se dá inteiramente àquele que se dá assim a Ele. Dai-vos inteiramente somente a Ele [...] e Ele Se dará inteiramente a vós. [...].  Vede São Paulo, São Bento, São Patrício, São Gregório Magno e tantos outros, quão longos tempos de recolhimento e de silêncio! Subi mais acima: olhai para São João Baptista, olhai para Nosso Senhor. Nosso Senhor não tinha necessidade disso, mas quis dar-nos o exemplo.  (Charles de Foucauld, carta ao Padre Jerónimo, 19 de Maio de 1898).

Charles de Foucauld relata sua meditação:
"Quero passar sobre a terra de maneira obscura como um viajante à noite. Viver na pobreza, na abjeção, no sofrimento, na solidão, no abandono para estar na vida com o meu Mestre, o meu Irmão, o meu Esposo, o meu Deus, que viveu assim toda a sua vida e me dá  esse exemplo desde o nascimento". (Meditações sobre o Evangelho).

Na era em que estamos vivendo, onde se busca loucamente o poder, a glória terrena, a fama, ele vem como sinal de contradição a nos dizer que ainda é possível vivermos essa experiência fantástica do deserto interior,  do viver no mundo, mas não para o mundo e sim para o bom Deus. Através da escuta da Palavra de Deus, da Eucaristia e da renúncia dos barulhos exteriores e da zoada dos demônios sonoros e visuais. Pela graça de Deus e pelo poder do Espírito Santo podemos viver várias modalidades de deserto em prol da nossa maturidade cristã. A passagem pelo deserto é uma atitude imensurável, é uma experiência com Deus abissal que marca para sempre a nossa alma em comunhão profunda com Ele.

Charles de Foucauld passa para nós um autêntico testemunho de busca de Deus de forma radical, de fé, de  pobreza, de humildade e de amor pela salvação das almas. Ele é um mestre na espiritualidade cristã, a sua espiritualidade de Nazaré é um clássico na História da Igreja e responde as demandas do vazio e da ansiedade do ser humano da pós-modernidade. É impactante na busca radical do Absoluto.

Inácio José do Vale