sexta-feira, 9 de outubro de 2026

DIA MUNDIAL DOS POBRES 2026

MENSAGEM DO SANTO PADRE LEÃO XIV PARA O X DIA MUNDIAL DOS POBRES 

XXXIII Domingo do Tempo Comum, 15 de novembro de 2026 


1. O Senhor é o refúgio do pobre (cf. Sl 14, 6). As palavras do salmista sugerem o caminho  que  somos  chamados  a  percorrer  na  perspectiva  do  X  Dia  Mundial  dos Pobres. Mais uma vez, é necessário recorrer à Palavra de Deus para compreender a importância que os pobres têm na vida da Igreja. A expressão do Salmo torna-se critério de avaliação para avaliar a existência cristã, pois revela o rosto de Deus e reconhece a pobreza humana. Realmente, num momento histórico dramático como foi a destruição do templo de Jerusalém, o povo sentiu-se privado da presença de Deus e experimentou uma miséria material e moral sem precedentes. 

De geração em geração, esta Palavra revela-se em toda a sua atualidade. Desde o início,  ela  mostra  a  contradição  na  qual  ainda  hoje  se  cai  frequentemente.  Com efeito,  a  primeira  constatação  é  esta:  «O  insensato  diz  em  seu  coração: “Não  há Deus!”. Corruptas e abomináveis são as suas ações; não há quem faça o bem» (Sl 14, 1). Ela põe em evidência o contraste entre os que se comportam com sabedoria e os que, pelo contrário, levam a vida como se não houvesse nada acima deles. Notase, infelizmente, como também nos nossos dias é difundida uma injustiça social que brota duma corrupção arrogante, tão deplorável quanto discriminatória. A perda do sentido de transcendência na vida quotidiana já não é tanto uma negação teórica da existência  de  Deus;  antes,  manifesta-se  em  não  considerar  a  sua  bondade  e misericórdia na construção da justiça pessoal e social. 

Os primeiros a sofrer as consequências são os pobres, cujo número, não por acaso, está a aumentar em muitas sociedades. A ausência de Deus faz com que as pessoas já não se coloquem umas ao lado das outras, num clima de respeito mútuo, mas sim umas acima das outras, num clima de domínio e opressão. Assim, é exibida uma lógica mundana de abuso de poder e descarte, que marginaliza e humilha. Nesta condição encontram-se não só pessoas individualmente, mas populações inteiras. As  palavras  do  Salmo  ressoam  ainda  cheias  de  verdade:  «Devoram  o  meu  povo, como quem come pão» (Sl 14, 4). 

2. O clamor dos pobres por justiça é hoje abafado por múltiplas técnicas, cada vez mais dissimuladas, a ponto de silenciar todos os seus esforços para fazer ouvir as suas  reivindicações.  O  ambiente  digital  radicaliza  o  preconceito  contra  eles  e aumenta a cortina de indiferença que envolve as suas causas. Ao pobre não resta senão  clamar  por  Deus  (cf.  Sl  34,7)  e  fazer  chegar  até  Ele  o  seu  lamento,  com  a certeza  de  ser  ouvido,  porque  Deus  é  fiel  e  rico  em  misericórdia.  Os  oprimidos, humilhados e indefesos crescem também hoje na certeza de que devem entregar-se a Deus, cheios de confiança e expectativa. Nesta entrega total, renasce o sentido da própria dignidade, reconhecem-se irmãs e irmãos com quem organizar os próprios sonhos,  a  esperança  torna-se  silenciosamente  realidade.  Refugiar-se  em  Deus equivale a encontrar a proteção verdadeira e segura, aquela que os poderosos não podem garantir e preferem negar. 

O pobre, porém, sabe reconhecer melhor do que os outros o essencial, porque vive do  essencial.  Semelhante  a  Cristo  mais  do  que  qualquer  outro,  reconhece  Deus como seu refúgio, mesmo quando as circunstâncias parecem contradizê-lo, e está cheio de esperança na justiça divina, que não tardará a manifestar-se. Na noite do abandono e da solidão, o pobre «habita sob a proteção do Altíssimo» (cf. Sl 91, 1). Todos os que estão aflitos, os que sofrem injustiça e são ofendidos, os que estão no sofrimento  e  na  dor,  os  que  estão  sozinhos  e  sem  sentido  para  a  vida  podem encontrar consolo e nova motivação junto do Senhor. 

3. Ser refúgio não é apenas uma promessa, mas torna-se realidade na pessoa de Jesus  Cristo.  Deus  vem  habitar  entre  nós  com  a  encarnação  do  Filho,  que  torna concreto e visível o refúgio esperado. Jesus Cristo é verdadeiramente o refúgio de Deus para os pobres. Pela sua obediência ao Pai, Ele desce até ao ponto mais baixo, onde se encontram os últimos. Ele vai ao encontro de todos e oferece a cada um um refúgio seguro: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu heide aliviar-vos» (Mt 11, 28). Em Jesus, Deus não só protege, mas partilha a pobreza humana até à cruz. 

Os pobres dos nossos dias são os esquecidos e os marginalizados: privados de uma palavra e de um rosto, e não só do pão. Que eles possam encontrar o Filho de Deus, que se faz próximo de todos sem deixar ninguém de lado. Que o encontrem, antes de mais, naqueles que se dizem cristãos. Na Igreja, seu Corpo, é Jesus quem oferece pão e amizade; traz luz e um horizonte de esperança; pronuncia o nome de cada um e devolve a todos a dignidade. Jesus de Nazaré é o dom de Deus aos pobres. N’Ele, todas as promessas tornam-se realidade. Para todos aqueles que carecem de casa, trabalho, instrução, alimento e saúde, abre-se um novo caminho: a partilha como expressão  do  Reino  de  Deus  (cf.  Mt  5,  3).  À  obsessão  daqueles  que  acumulam riquezas  apenas  para  si  opõe-se  a  obstinação  de  Deus  que,  no  testemunho  de pessoas de carne e osso, abre o coração e acolhe no seu amor. 

4. Em Cristo, portanto, também nós somos chamados a tornarmo-nos pobres e a sermos refúgio para os pobres. A comunidade cristã não pode permanecer insensível perante tantos que hoje se encontram à porta e permanecem invisíveis para aqueles que  estão  fechados  entre  as  suas  próprias  paredes.  A  Igreja,  pela  sua  própria natureza,  é  chamada  a  ser  pobre  e  refúgio  para  os  pobres.  Não  esqueçamos  o comentário de Santo Agostinho à parábola do homem rico e do pobre Lázaro: «Calou o nome do rico e disse o nome do pobre. O nome do rico andava de boca em boca, mas Deus calou-o; o nome do pobre passava em silêncio, mas Deus revelou-no-lo. […] Tu, que escolherias? Ser pobre como Lázaro ou ser rico como o outro? Não te deixes enganar! Escuta qual foi o fim e repara na má escolha» (Sermo 33A, 4). 

Como  recordei  na  Exortação  Apostólica  Dilexi  te,  «Deus  mostra  predileção  pelos pobres: a eles primeiramente se dirige a palavra de esperança e libertação do Senhor e  por  isso  ninguém,  apesar  da  condição  de  pobreza  ou  fraqueza,  deve  sentir-se abandonado.  E  a  Igreja,  se  deseja  ser  de  Cristo,  deve  ser  Igreja  das  Bemaventuranças, Igreja que dá vez aos pequeninos e caminha pobre com os pobres, lugar onde os pobres têm um espaço privilegiado» (n.º 21). 

Surgem inevitavelmente algumas perguntas que, neste X Dia Mundial dos Pobres, precisamos  urgentemente  de  fazer  ressoar  na  nossa  mente  e  no  nosso  coração. Somos sinal de um Deus que é refúgio para os pobres? Temos consciência da nossa pobreza e preferimo-la à riqueza injusta? Chegamos onde se encontram os pobres, experimentando a sua marginalidade? Ouvimos os seus pensamentos e partilhamos as suas expectativas? Pronunciamos os seus nomes com ternura divina? A nossa caridade reaviva e sustenta neles o desejo de justiça e redenção? Estas e muitas outras  questões  obrigam-nos  a  um  sério  exame  de  consciência,  para  verificar  o quanto ainda somos chamados a ser em favor dos pobres e da sua libertação. Então veremos que os pobres se tornam, eles próprios, refúgio para os outros. A experiência da pobreza faz-nos particularmente sensíveis a uma solidariedade renovada perante os desafios. 

O  amor  de  Cristo  torna-nos,  na  verdade,  participantes  da  vida  de  amor  de  Deus. Neste sentido, os cristãos são chamados não só a procurar refúgio em Deus, mas também a tornar-se, em Deus, um refúgio para os outros, sem «fazer distinção entre quem assiste e quem é assistido, entre quem parece dar e quem parece receber, entre quem aparece pobre e quem sente que oferece tempo, competências, ajuda. Somos a Igreja do Senhor, uma Igreja de pobres, todos preciosos, todos sujeitos, cada um portador de uma Palavra singular de Deus. Cada um é um dom para os outros» (Homilia, 17 de agosto de 2025). 

5. O oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis convida-nos a recordar como,  ao  chegar  a  Roma  em  peregrinação  ao  túmulo  do  apóstolo  Pedro,  ele  se compadeceu  dos  mendigos.  Para  compreender  e  experimentar  o  seu  sofrimento, tirou  as  próprias  vestes  e  trocou-as  pelas  roupas  esfarrapadas  de  um  deles, sentando-se a pedir esmola e passando o dia inteiro no meio dos pobres com alegria de  espírito  (cf.  Fontes  Franciscanas,  1405-1406).  Queremos  testemunhar  que  é possível, também hoje, experimentar a mesma alegria ao colocar-se no lugar dos pobres  e  ao  ouvi-los,  em  vez  de  apenas  falar  sobre  eles.  Quem  tem  Deus  como refúgio é livre para fazer escolhas proféticas, que testemunham como tudo pode ser repensado a partir de baixo, na humildade e na fraternidade que, por si sós, curam um mundo ferido pela prepotência. 

Confio que este X Dia Mundial dos Pobres possa constituir uma etapa significativa na redescoberta do rosto de tantos irmãos e irmãs que procuram refúgio em Deus e desejam  sentir-se  em  casa  nas  nossas  comunidades.  Mantenhamos  viva  a obediência à Palavra de Deus, que nos convida à conversão do coração. Possa a Virgem Maria, que na carne crucificada do Filho contemplou o amor de Deus que enche  de  bens  os  famintos  e  despede  os  ricos  de  mãos  vazias  (cf.  Lc  1,  53), interceder por nós. 

Vaticano, 13 de junho 2026, memória de Santo António de Lisboa. 

LEÃO PP. XIV 

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