quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

RETIRO - PE. MÁRIO FILIPPI - 1)- IR AO DESERTO


RETIRO 2008 –  Primeira Meditação : 
Ir ao deserto e nele permanecer” – (19.05.1898).


Quando fui pregar um retiro em Rio Branco, Dom Moacyr Grechi que era então bispo daquela Diocese, deu abertura ao retitro com estas palavras: “Nós não precisamos de alguém que nos cotuque, mas de tomar folego”.

Palavras de sabedoria e humanidade que lembram uma reflexão do Irmão Carlos, comentando Mc 6,31: “Vinde a parte para algum lugar deserto e descansai um pouco”.

Na nossa vida, seja escondida, seja, sobretudo na pública (é necessário em qualquer tipo de vida, mas, mais na pública) que tenhamos alguns períodos de descanso e períodos de solidão, para transcorrer em companhia de Jesus... Isto é, que façamos retiros que tenham estas três características que Jesus nos mostra aqui”.

Sejam períodos de descanso, não períodos de cansaço, de atividade, de trabalho penoso para o espírito, mas períodos de distensão, dos quais possamos sair não com o espírito exausto e esgotado, causa de um trabalho extraordinário, mas renovados e reanimados por um doce descanso aos pés de Jesus.

Sejam períodos de solidão: mais ficaremos a sós com Jesus, mais dele gostaremos. O amor gosta de um diálogo a dois; menos estaremos com as criaturas e mais poderemos consagrar todos os momentos, todos os pensamentos, todo o nosso coração ao único amor e à única contemplação de Jesus, mais docilmente, mais plenamente e seremos felizes com o Bem Amado.

Sejam períodos de solidão em companhia de Jesus, sempre com ele, não nos preocupando, ficando alegremente aos seus pés, olhando-o sem dizer nada,interrogando-o, sempre cheios de felicidade, como faziam os apóstolos, a santaVirgem Maria e Santa Madalena, quando estavam a sós com o Divino Mestre” (M.S.E.201).

Assim, se o retiro tiver sido um bom descanso e se dormi bem... terá sido um bom retiro. Voltaremos para casa descansados! Um retiro que respira a espiritualidade de Charles de Foucauld só pode ser um retiro que valoriza muito o deserto, como Moisés, Elias, os profetas, João Batista, Jesus, Francisco e o povo Hebreu.

Para o povo Hebreu o tempo do deserto foi visto como o tempo ideal durante o qual o povo se purificou e preparou para entrar na terra prometida. Foi o tempo da Aliança, dos prodígios, quase um tempo de namoro, noivado e núpcias. Por isso, - após as crises, o esfriamento, a infidelidade do povo que esquecia o amor e os favores do Esposo, - os profetas, Oséias especialmente, propõem novamente um retorno ao deserto.

Os 2,16-22: “Por isso a atrairei, conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração... Aí ela se tornará como no tempo da juventude, como nos dias em que subiu da terra do Egito”.

Esse tempo em que o povo Hebreu permaneceu no deserto, após sua saída do Egito, é visto pelo profeta como um tempo ideal, uma experiência singular, um momento fecundo, abençoado, rico.

- O maná, a água da rocha, a aliança, os mandamentos... tudo isso é visto como o tempo da juventude, do entusiasmo, do ardor, da paixão, do idealismo, dos sonhos,
projetos, vibração, enamoramento. Com todas as crises (como acontece entre namorados e noivos). Por isso Deus quer re-conduzir o povo ao Deserto para falar-lhe ao coração, refazer a experiência de então. É isto que também nós queremos fazer, no retiro. É isto que Jesus espera de nós neste retiro.

O Apocalipse retoma o tema de Oséias, e o que o Apocalipse diz da Igreja de Éfeso pode ser aplicado ao presbítero, a nós.

Conheço a conduta de você, seu esforço e sua perseverança, você é perseverante... Sofreu por causa de meu nome e não desanimou. Mas há uma coisa que eu reprovo. Você abandonou o seu primeiro amor. Preste atenção: repare onde você caiu. Converta-se e retome o caminho de antes” Ap 2,1ss.

Deus se queixa como os namorados: parece que você não gosta mais de mim. Houve um tempo ideal de generosidade, perseverança, amor, fidelidade,entusiasmo, sonhos e projetos. Mas, as pessoas assim como os grupos, as congregações, as instituições, a Igreja, sofrem um desgaste, desencanto, cansaço, rotina, apatia. Só o Espírito Santo não se desgasta.

Deus diz: Converta-se e retorne ao caminho de antes”. Precisamos reinventar nossa vida, a Igreja, com a força do Espírito para:

  • experimentar novamente a paixão por Jesus, pelo Reino, por seu Projeto;
  • fazer memória das motivações que foram a base das nossas decisões;
  • fazer memória das maravilhas que Deus realizou em nós;
  • resgatar a nossa resposta generosa e um tanto presunçosa (como a de Pedro: – mesmo que todos te abandonem eu não te abandonarei).
É para isso que vamos a este deserto, retiro. Queremos entrar e permanecer no DESERTO, aproximar-nos da SARÇA que arde e não se consome. Ex.3,1-6: Moisés levou o rebanho de Jetro além do deserto, Deus lá o estava
esperando. Não era Moisés que esperava Deus no deserto, era Deus que procurava Moisés e esperava por ele. Não somos nós, não sou eu que procuro Deus, Ele está a minha procura, esperando por mim.

Precisamos aproximar-nos da Sarça com os pés descalços (tira as sandálias).

-O calçado significa segurança (particularmente as botas), auto-suficiência; arrogância (militares), superioridade, pretensão. Quem anda descalço machuca o pé, é picado pelos escorpiões, suja os pés, pega doenças (leptospirose).

  • O calçado significa aparencia, status, dignidade (o filho prodigo: coloquem calçados nos seus pés - lembro o vexame que passei no aereoporto de Manaus porque estava de havaianas, ou na prefeitura de Recife).
Tira as sandálias = tira tua auto-suficiência, tua arrogância; tira tuas máscaras, a fantasia, as aparências (títulos). Fica nu perante Deus, pois Ele vê além das aparências.

Quando saí da paróquia onde trabalhei na Italia, os jovens me presentearam com uma imagem de Nossa Senhora com as maos abertas. Nós dizemos: Nossa Senhora das Graças. Mas um pastor luterano que a viu me disse: “Assim também eu gosto de Maria: Maria com as mãos vazìas”. E’ isso mesmo! Vamos a Deus com os pés descalços e as mãos vazias.

O deserto seja tempo de silêncio e solidão, enquanto for possível para poder escutar.

Zc. 2,17: Silêncio diante de Javé, criaturas todas, pois ele se levanta em sua morada santa.

Sf. 1,7: Silêncio diante do Senhor Javé, pois está próximo o Dia de Javé.

Hab. 2,20: Javé mora no seu santo templo: que a terra inteira fique em silêncio diante dele.

Lm. 3,26: Bom é esperar em silêncio o socorro do Senhor.

Irmão Carlos, 02.02.1892, à sua prima Maria de Bondy: “Encontro-me numa situação que nunca experimentei antes, senão um pouco quando voltei de Jerusalém. É uma necessidade de recolhimento, de silêncio, de estar aos pés do Bom Jesus, de olhá-lo quase em silêncio. A gente sente e gostaria de ficar sentindo, sem nem mesmo falar que pertencemos totalmente ao Bom Deus e que ele nos pertence totalmente”.

Ir. Carlos ao Pe. Huvelin, 19.05.1898:

É necessário ir ao deserto e nele permanecer para receber a graça de Deus; é ali que nos esvaziamos, que jogamos p’ra fora de nós tudo o que não é de Deus e que esvaziamos completamente esta pequena casa de nossa alma para deixar todo lugar unicamente para Deus”.

O Deserto é:

Lugar de Experiência de Deus: - (Jesus vai ao deserto após o Batismo para prolongar a doçura da experiência do Abbá

  • como a criança que chupa uma bala devagar). O essencial é que o missionário reencontre sempre Aquele que o envia” COMLA 5,3,2.
Lugar de Tentação:
-Povo hebreu tentado no deserto.
  • Elias tentado no deserto.
- Jesus tentado 40 dias.
  • Deus, Sl 95,8-9 – “Onde vossos pais nos provocaram e tentaram...”
Lugar do Discernimento e da Decisão:
- Moisés, frente à Sarça, compreende, toma consciência, discute com Deus, decide-se.
- Jesus toma consciência de sua missão de servo de Javé, não um milagreiro que dá um show, um poderoso, um rei.