quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

RETIRO - PE. MÁRIO FILIPPI - 7- A ORAÇÃO DE JESUS


RETIRO DE 2008  Sétima Meditação

Contemplar Deus em si mesmo é a vida interior de Nosso Senhor”

As três maneiras de contemplar Nosso Senhor, de contemplar Deus, são boas e perfeitas e as três devem encontrar espaço na nossa vida”.

Contemplar Deus em si mesmo é a vida interior de Nosso Senhor em todos os seus dias e em todos os seus instantes. Para imitá-lo é preciso que pratiquemos muito e, por assim dizer, não percamos nunca de vista esta maneira de contemplar.

Contemplar Nosso Senhor na Santa Eucaristia é também este um dever, porque ele se oferece a nós, para que o contemplemos nela.

Contemplar Jesus nos mistérios de sua vida também é um dever, porque, se ele viveu estes mistérios e os fez conhecer através das Escrituras inspiradas pelo Espírito
Santo, é para que as conhecêssemos, meditássemos e contemplássemos neles Ele mesmo” (Comentário a Jo 15,28-33 – M.S.E. 500).

A verdadeira perfeição, porém está em fazer a vontade de Deus... Quem ousaria afirmar que a vida contemplativa é mais perfeita que a ativa ou o contrário, sendo que Jesus viveu seja uma que outra? Uma única coisa é realmente perfeita e é fazer a vontade de Deus” (M.S.E. 194).

Aridez e trevas: tudo me é causativo: a Santa Comunhão, a oração, a reza, tudo, tudo, também dizer a Jesus que o amo... Preciso agarrar-me à vida da fé. Se ao menos sentisse que Jesus me ama. Mas ele não mo diz nunca” (Nazaré 1897).

Quanto às distrações, vocês nem imaginam quantas eu tenha, é uma miséria. E vejam que eu sou verdadeiramente sozinho: entre a igreja e o galpão da lenha, onde trabalho sozinho, não há nada que me atrapalhe: é do interior que me vem as mais inesperadas e ridículas distrações. Mas não destroem a paz e este doce e carinhoso pensamento por Nosso Senhor... porém estorvam e atrapalham... minha reza do Officio às vezes não é outra coisa que uma longa distração, é uma coisa mesquinha”. (29.09.1892)

Karl Max – “A religião é o ópio do povo”. Antes dele os profetas já afirmavam isso.

Is 1,10-20 – “De que serve a mim a multidão de vossas vítimas? Já estou farto de holocaustos... Quando multiplicais vossas preces não as ouço... Quando estendeis
vossas mãos, eu desvio de vós os meus olhos. Vossas mãos estão cheias de sangue...”

Is 29,13 - “Este povo vem a mim apenas com palavras e me louva só com os lábios enquanto seu coração está longe de mim e o temor que ele me testemunha é convencional e rotineiro”.

Am 5,21-25 – “Aborreço vossas festas, elas me desgostam, não sinto nenhum gosto em vossos cultos... Longe de mim o ruído de vossos cânticos, não quero mais ouvir a música de vossas harpas, mas antes que jorre a justiça”.

Os 6,6 – “Eu quero o amor mais que os sacrifícios e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos”.

Miq 6,6-8 – “Com que me apresentarei diante do Senhor? Holocaustos... carneiros... primogênitos? Já te foi dito, ó homem... que pratique a justiça”.

Sl 51,18-19 – “Vós não vos aplacais com sacrifícios, rituais...”.

Na mesma linha dos profetas, Jesus é muito desconfiado e critico a respeito de oração.

Mt 7,21 – “Nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus”.

Mt 9,13 – 12,7 – “ Eu quero misericórdia e não sacrifício.

Mt 15,7 – “É bem de vós que o profeta Isaias diz: “Este povo me louva com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Vão é o culto que me prestam”.

Mt 23,14 – “Ai de vós escribas e fariseus hipócritas: devorais as casas das viúvas, fingindo longas orações”.

Jesus desmitificou com seus atos e palavras, templo, sábado, culto. Culto, oraçao, sacrifício, desligado da história, da vida, da justiça é vazio, ilusão, alienação, hipocrisia, ambigüidade: pode dar prestigio, privilégios, poder aos poderosos e opressores, mas não dá glória de Deus.

Os opressores fazem e ensinam a fazer uma oração alienante, dualista, desligada da vida. Bom padre para os opressores é aquele que reza bastante, celebra uma missa bonita, piedosa, sentimental, só fala de religião, não fala em reforma agrária, demarcação das terras dos índios, não faz política não mistura religião e luta popular.

Mas uma oração a-critica, ingênua, desligada da vida, faz mal seja aos oprimidos que se tornam fatalistas e se acomodam, seja aos opressores que rezam e tranqüilizam a sua consciência. Não é assim que Jesus rezava e ensinou a rezar. Porque Jesus rezava mesmo. Vamos olhar para Jesus – Olhar para Jesus é um contínuo apelo à conversão.

A vida de Jesus e sua coerência até a cruz se tornam incompreensíveis sem a oração, sem uma contínua comunhão com o Pai. Sem a experiência do ABBÁ a vida de Jesus é inexplicável.

Jesus era homem, não super homem. Como é que ele conseguiu doar-se totalmente ao povo, doentes, pobres, apóstolos, pecadores, não tendo nem tempo para comer, enfrentando inimizades, incompreensões, calúnias, hipocrisias? Como é que não se desintegrou, esvaziou, não desanimou como acontece conosco?

Dizia o frei Artur – “O povo vem a nós, como tantas sanguessugas, que ficamos anêmicos”.

Como é que Jesus não ficou anêmico? Como é que ele conseguiu tirar tanta água do seu poço, sem que o poço secasse? É que o Pai sempre de novo enchia o poço e isto acontecia nas horas de oração.

Podemos considerar 3 maneiras de Jesus rezar.
1–Jesus rezava com o povo e como o povo (religião popular): na sinagoga, templo, sábado, romarias. Lc 2,42 – 4,16 – 6,6 – Dt 16,13: Festa dos Tabernáculos; Jo 10,22: da dedicação.

2– Jesus não se limitou à oração com o povo, esta oração é insuficiente para alimentar uma comunhão mais profunda e vital com o Pai e para sustentar e dar força para a missão. Jesus fazia longas vigílias e madrugadas de oração no deserto e nas montanhas.

Lc 3,21 – Enquanto orava, abriu-se o céu.
4,1-13 – 40 dias no deserto;
4,42 – ao amanhecer;
5,16 – mas ele costumava retirar-se;
6,12-13 – Escolha dos apóstolos;
9,18 – Jesus está em oração – quem dizes estes que eu sou?
9,28 – Transfiguração.
10,21 – Exultou no Espírito.
11,1 – Ensina-nos a rezar.
22, 39-42 – No Jardim das Oliveiras.

3) – As longas vigílias de oração é que alimentavam uma íntima, profunda e contínua comunhão de Jesus com o Pai. Esta é a oração de Jesus mais verdadeira.

Jesus não dava ao Pai retalhos de tempo, mas toda sua vida era oração. Uma vida emoldurada entre 2 orações significativas.

Hebr – 10,5 – “Eis porque, ao entrar no mundo, Cristo diz: Não quiseste sacrifício nem oblação, mas me formaste um corpo. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não te agradam. Então eu disse: Eis que venho... ó Deus para fazer a tua vontade”.

Lc 23,46 – Pai em tuas mãos entrego o meu espírito.

Esta comunhão intima e profunda de Jesus com o Pai, constitui o mistério de Jesus: Algo que não se banaliza, não se joga na rua, mas que Jesus deixa transparecer especialmente com os discípulos.

Jo-10,30 – “Eu e o Pai somos um”.
Jo – 14,11 – “Crede-me, estou no Pai e o Pai em mim”.
Jo – 6,57 – “O Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai”.
Jo – 10,38 – “Não estou só: o Pai está comigo”.
Esta comunhão amorosa contínua com o Pai vitaliza, sustenta, alimenta, o ser, a vida, a missão de Jesus.

A respeito desta oração amorosa, íntima, profunda, permanente de Jesus, não temos muito a dizer. Constitui o mistério da vida pessoal do relacionamento de Jesus com o Pai. Mas podemos tomar em consideração o conteúdo da oração de Jesus no deserto, nas madrugadas, nas vigílias. Jesus rezava a vida, a história, os acontecimentos. A sua não era oração alienada, dualista. As grandes decisões existenciais e pastorais de Jesus foram amadurecidas, anticipadas, na oração, no diálogo com o Pai. A oração de Jesus é granvida de História. Na oração, Jesus anticipa, prepara, amadurece, assume conscientemente as decisões, a história.

Lc 4,1-13 – As tentações no deserto. Jesus na plenitude de suas forças vitais, sentindo em si forças divinas.

  • O que fazer com a força e poder que possui? - Jesus toma consciência e define sua missão. - Jesus toma a decisão e ao sair do deserto vai a Nazaré (Lc 4,14-21) e diz claramente e com firmeza qual a sua missão.
A opção pelos pobres foi amadurecida no deserto.

Lc 6,12-13 – “A escolha dos 12 e o discurso da planície”. “Jesus retirou-se a uma montanha para rezar e passou aí toda a noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou a si os discípulos e escolheu 12 entre eles que chamou apóstolos”.
  • Uma decisão pastoral tomada na oração, assim farão os Apóstolos.(At 1,24,At 13,2-3)
Lc 9,28-36 – A Transfiguração.

Enquanto ora, Jesus se transfigura (como no Batismo). Transfiguração é um momento personalizante. Jesus toma consciência da própria identidade como filho de Deus. Momento conscientizador, a respeito da missão. Jesus, Moises e Elias falam do seu Êxodo”.

Lc 22,39-42 – No Jardim das Oliveiras.
Hebr 5,7 – “Dirigiu preces e súplicas entre clamores e lágrimas”. “O espírito está pronto, mas carne é fraca”. Jesus não é um super-herói. Ele chora, clama, Na vigília, Jesus toma consciência, aceita livremente, participa plenamente, anticipa os fatos (suor de sangue) prepara o espírito. Jesus não é surpreendido, atropelado pelos acontecimentos. Os discípulos não rezavam e foram atropelados. Jesus os manda para casa.

A oração torna a ação consciente, coerente, criativa, fecunda, destemida, teimosa. Devemos desconfiar de uma ação não amadurecida na oração. E desconfiar de uma oração que não leva à ação. É preciso precaver-se contra o ativismo e contra o espiritualismo.

O ativismo não é evangélico.

Jesus nao se cercou de empregados ou eficientes funcionarios, mas de amigos “Não vos chamo servos, mas amigos” - Jo 15,15.

Lc 10,32-42 Marta age sem escutar, Maria escuta para poder agir corretamente.

Rom 8,15-17 – O Espirito naoè dado primeiramente para a missao, mas para lamar: Abba, Pai.

Também o espiritualismo è evangélico.

Mt 7,21 “Não aquele que diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do Pai que està no céu”.

Se você estiver arrebatado ao sétimo céu e um doente lhe pedir um copo de agua fresca, nao duvides em descer do sétimo céu para lhe alcançar a àgua” (Bernanòs em: Diário de um pàroco de aldeia).