quinta-feira, 8 de março de 2012

ESPIRITUALIDADE DE C. F- 3ª PARTE

1- Introdução 

O próprio título que me deram parece-me problemático.
Não me parece que se tenha que fazer uma fundamentação teológica da espiritualidade do Irmão Carlos. Porque já a tem. Creio que a tarefa é explicitar as bases teológicas sobre as quais repousa essa experiência. Porque falar de “fundamentação teológica” pode dar a entender que é preciso dar-lhe uma base sólida, como se não a tivesse. 

Creio antes que é preciso desentranhar cada vez mais o fundamento teológico que tem, e é isso justamente que pode alimentar uma teologia. Não é a teologia que vai dar cartão de cidadania a essa experiência espiritual, ao contrário é ela que tem que ensinar. É muito importante porque se trata de ver a questão pelo lado contrário. Quero dizer com isso que há muito que aprender ainda dessa experiência espiritual e que isso não se aprende nos livros nem nos grandes teólogos. O máximo que nós podemos fazer é dar nome ao que está sendo vivido.

Nesse sentido, não começarei pelo que vocês formularam como traços da identidade. Sei que lhes preocupa essa questão da identidade e não é só vocês que se preocupam, mas todos nós, como cristãos e nas diferentes famílias religiosas. 

Não se trata em primeiro lugar de uma questão teórica, porque mais ou menos teoricamente todos temos clara a identidade do que somos. Trata-se antes de desentranhar dessa identidade como ela tem que ser vivida, entendida e apresentada hoje.

Não é que não saibamos, mas talvez nos detenhamos no passado, com as primeiras formulações. Evidentemente, toda experiência é formulada com a linguagem disponível no tempo em que nasce. E a do Irmão Carlos, da mesma maneira. É evidente que a do Irmão Carlos está muito mais próxima de nós que, por exemplo, Santo Inácio dos jesuítas. A linguagem é muito mais próxima, o que não quer dizer que não esteja condicionada também por sua história, por sua vida, pela Igreja de sua época. Então, a tarefa e o esforço, ao colocar-se em contato com essa espiritualidade, é desentranhar sua atualidade.

E preciso tomar cuidado para que não se petrifique, como se bastasse repetir o que já foi dito uma vez por todas; não, é preciso fazer constantemente o esforço de uma tradução viva e atual. Esse esforço, só poderíamos chamá-lo de busca dos fundamentos, mas busca de algo que já está fundado.

A experiência do Irmão Carlos é o Evangelho. Não há melhor teologia cristã que a do Evangelho. Quando se esquece isso, a teologia torna-se especulação. Nesse sentido, explicitar isso hoje numa família como esta tão diversificada, não é nada fácil. É diferente quando se trata de um grupo mais ou menos homogêneo. Mas a diversidade dessa família é também sua riqueza. Uma das genialidades do Irmão Carlos é não ter restringido a experiência a uma única forma de viver. 

Apesar de ter sonhado com regras para irmãos e irmãs, no começo. Mas deixou aberta a experiência para que pudesse ser captada e vivida de muitas maneiras. E aí, nessa diversidade, está a riqueza dessa experiência e a fonte de inspiração. Essa diversidade é. ao mesmo tempo, uma riqueza e um desafio: desafio no sentido de que não podemos metê-la numa camisa de força; mas, por outro lado, não se pode diluir de tal forma que tudo caiba nela. porque nesse caso não haveria o risco de que cada um se arrogue o direito de dizer: Nós somos herdeiros também do Irmão Carlos. 

É preciso pôr certas balizas ou pautas. E nesse sentido, eu entendo sua preocupação de buscar traços de identidade que não amarrem de uma maneira arbitrária, mas ao mesmo tempo, que tudo não fique tão solto que qualquer coisa possa caber nessa experiência espiritual.

Nesse sentido, vou desenvolver brevemente três passos: O primeiro seria refletir sobre o estado de espírito da experiência do Irmão Carlos. O estado de espírito não pode ser confundido com as chaves. Ao desenvolvê-lo, vocês verão um pouco o que quero dizer com essa questão de estado de espírito. É uma forma de viver. Depois, evidentemente, o que vocês chamam de “chaves” e que são traços arrancados desse modo de viver, são traduções disso, mas não podem ser entendidas fora desse estado de espírito, desse modo de ser, e desse itinerário porque, caso contrário, se tornariam algo abstrato que, depois, cada um poderia interpretar como quer. E em terceiro lugar, muito brevemente, daria algumas pistas a partir de onde isso está enraizado teologicamente e quais são os fundamentos teológicos que estão implícitos, vividos, não explicitados formalmente na experiência.

O Irmão Carlos o explicitou nos seus escritos, mas não de forma acabada. Sua preocupação não era fazer uma teoria espiritual. E creio que isso é muito importante: uma coisa é a experiência espiritual, outra a teoria espiritual. Não podem ser confundidas, embora estejam unidas e por ambos caminhos se possa aprofundar a experiência.